quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

XXVI - LUTAR... SENDO EU, PORQUE!

Quem cedo aprende a sorrir percebe, logo desde cedo, que a nossa vida tem mais doçura do que amargura. A nossa vida será sempre um constante desafio, e não podemos nunca perder de vista o lado bom das coisas, sobretudo do amor.
Ao longo da vida emocional alimentamos esperanças, sonhos, e muitas vezes para onde olhamos nada vemos, embora as soluções estejam lá, bem na nossa frente.
O nosso dia-a-dia, o nosso quotidiano é uma espécie de constante campo de batalha, e sabemos que nada é fácil nesta vida, sobretudo em termos emocionais na conquista da tão almejada felicidade.
Muitas vezes lutamos só contra a solidão, outras vezes, mesmo no meio de uma multidão, lutamos para não perder coisa alguma, porque na verdade ainda não temos nada, mesmo quando pensamos que já temos tudo na vida.
No entanto nunca é fácil estar de pé no meio dos escombros da vida, sobretudo quando esses escombros são pedaços dos nossos sonhos.
É muito difícil levar a vida sorrindo, quando existem fartos motivos para abandonar a luta e não tentar superar todas as forças contrarias ás nossas realizações, sobretudo as afetivas.
Tantas e tantas vezes perante o desastre emocional procuram-se respostas e elas não vêm.
Tantas e tantas vezes perguntamos porque? E nada! Ninguém nos responde!...
Ao longo da minha vida já várias vezes, perguntei a mim próprio:
Porque?
Mas Porque?
Mas que atitude mais patética, pois como vou eu próprio responder-me, e conseguir entender.
Mas em 1984 eu perguntei mais uma vez a mim próprio: porque?
E acho que consegui uma resposta, que passados todos estes anos... e fazendo que estava completa e correta. Perguntei porque amava uma pessoa, porque sentia que continuava a amar essa pessoa mesmo depois dela ter partido para nunca mais voltar em termos físicos, e só encontrava uma resposta:
“Amar é uma questão de decisão, uma atitude cultivada ao longo do tempo”
Nessa época da minha vida até por vezes quis deixar de ser quem realmente eu era.
Fugir de dentro de mim próprio, ser um outro eu, um outro alguém parecido no entanto comigo, mas com outros sentimentos, mas foi impossível, era muito mais forte do que eu, porque eu gostava de mim. Eu ainda hoje gosto muito de mim próprio como sou!
Hoje continuo a ser eu mesmo, e passados todos estes anos, bem mais de vinte anos, eu consegui finalmente ousar ser feliz como sou agora e aceitar-me a mim mesmo com todos os meus defeitos e virtudes e tudo o mais a que acho que tenho direito.
Muitos de nós não o conseguimos entender, mas a causa de muitos dos nossos problemas sociais e emocionais é tão simplesmente pelo simples fato de que muitas vezes não gostamos de nós mesmos.
Não gostar da nossa personalidade, auto- comparação com outras pessoas, desejar ser diferente, fugir de nós mesmos, é o pior inimigo de nós próprios.
Se eu em 1984; não tivesse conseguido sentir-me seguro em relação a quem era de fato e de verdade, nunca poderia ter-me sentido depois de tudo pelo que passei, melhor comigo próprio.
Fui verdadeiro comigo mesmo, e assumi que não tinha que agradar ao mundo inteiro, tinha, sobretudo, que me agradar a mim mesmo.
Para poder desfrutar da vida de um modo pleno e confiante, aprendi a confiar totalmente na pessoa que realmente sou.
Assim, nunca deixo que as pessoas me tentem pressionar a ser, ou fazer aquilo, que não quero. Ou que tentem que me sinta mal em relação a mim mesmo, pelo simples fato de não me encaixar na imagem de quem elas acham que eu deveria ser.
Isso seria o mais ridículo possível, passar a vida a tentar ser outra pessoa, seria o mesmo que uma peça de imitação, uma copia, e não eu sou mesmo o original.
Talvez que entre outras coisas o fim do meu casamento de 18 anos com a Fernanda tivesse um pouco que ver com essa luta de tentarem fazer de mim uma copia alterada, um clone com novas potencialidades, quando eu sou mesmo o original.
De forma alguma me sinto mal pelo meu caráter e personalidade tão peculiar e original, com os meus gostos e ‘hobbies’ muito pessoais, que fizeram de mim a pessoa que realmente eu sou, e não uma outra pessoa que não teria rigorosamente nada que ver comigo.
Quando regressei a Portugal em Dezembro de 1984, da minha primeira grande viagem pela Europa, eu vinha diferente, era já mais eu!
Quando em 1980 eu conheci Dulce, eu era um pouco menos eu, não que o meu caráter ou personalidade fossem diferentes, no entanto acho que não estavam na sua totalidade desenvolvidos suficientemente para me possibilitar ter uma capacidade de auto-visão de mim próprio, capaz de me assumir mais como eu.
Era assim como passar a ter capacidade de quantificar o quanto os meus sentimentos vivem e sentem perante novas ocorrências. Só pude constatar isso em Dezembro de 1984 e tudo graças a um fato que mudou toda a minha vida.
Para melhor definir isso, eu adoro uma frase do Premio Nobel da química de 1977, Ilya Prigogine:
“Os paradoxos da mecânica quântica podem muito bem ser considerados como pesadelos da mente clássica”
Ninguém pode viver preso ao passado, até que pode, mas não deve. Sobretudo, quando esse mesmo passado evoca algumas lembranças emocionais de certa forma traumáticas.
Em 1980 eu conheci aquela mulher no Externato Moderno, propriedade dos Professores Fraguas e Barbado, ali na Avenida da Republica, hoje aquele edifício ao lado da carpintaria que fazia esquina com a Rua Combatentes da Grande Guerra, não existe mais, está lá no seu espaço físico um prédio ultra moderno.
Tão pouco o Professor Barbado com os seus óculos ‘garrafais’, ainda por ali anda fisicamente, agora só mesmo na nossa saudosa recordação, e o Professor Fraguas, com os seus dedos minúsculos de uma das mãos, é também já uma saudosa e grata recordação.
Foi ali que um dia ao entrar, na companhia do meu bom e grande amigo António Manuel Castro “To-Mané”, eu vi pela primeira vez aquele raio de luz de cabelos longos, estatura media para o baixo, emanando alegria debaixo daquele seu sorriso e olhos penetrantes. Sem duvida foi logo ai que eu senti algo diferente, e como essa mulher iria ser realmente a mulher da minha vida. Ela tinha tudo com o que eu sonhara em termos físicos para um dia poder vir a ser minha mulher, e por outro lado em termos emocionais foi como que uma explosão imediata, e então era logo ali que eu a ia encontrar!
Então eu que estudava no Liceu dos Casquilhos e apenas ali ia recolher apoio no estudo, para melhorar algumas notas, eu que estava rodeado de tantas mulheres, até bem mais belas, tanto no Liceu como no meu dia-a-dia, e tinha que ir ali para encontrar aquele fenômeno.
O “To-Mané” soube na hora que aquela era a mulher da minha vida, era a mulher que tinha parado a minha vida de namoricos, era ela a responsável pela chamada “crise”, e dessa forma todos brincavam comigo; o Jorge Santana, o Seixas e outros colegas e amigos, claro que brincavam porque eu fiquei vidrado, para não dizer apalermado.
Não foi no entanto fácil chegar até ao seu conhecimento.
Ela era um furacão, era fugidia, irônica no trato, bem temperamental, e mesmo depois de eu fazer amizade com as suas colegas e amigas, Ana Caetano e Isabel, ela continuava a mostrar-se reservada.
De repente, caminhando debaixo destes tempos de nevoeiros e nebelinas, dou-me conta de que o mundo em redor é ótimo.
Cá entre nós, fiquei na duvida se deveria ou não compartilhar com vocês essa importante etapa pessoal da minha vida, que me fez viajar ao passado de muitas lembranças e lições de vida. Por outro lado, deixar de reconhecer publicamente esse “capitulo” que teve como protagonista a Dulce, me pareceu tremendamente injusto.
Então tomei a liberdade de ir em frente, sem a pretensão de fazer mais do que o melhor, mas com a sinceridade e a gratidão do meu coração.
É isso, a vida não passa mesmo de um comboio, cheio de embarques e desembarques. Não importa, é mesmo assim a viagem, cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, despedidas, porem jamais tem retornos.
O grande mistério desta viagem é afinal nunca sabermos em que paragem vamos descer, e muito menos os nossos companheiros de viagem, nem mesmo os que por algum tempo viajam mesmo ali ao nosso lado.
Embora tenha sido uma viagem relativamente curta no tempo, eu ficarei sempre muito grato por ela ter feito parte da minha viagem, e da minha vida, e ter contribuído para uma viagem bem mais valiosa.
Por certo no futuro, e por mais que os nossos assentos nunca mais voltem a estar situados lado a lado, com certeza numa outra viagem, se ela existir, a carruagem, o vagão vai ser o mesmo.
Foram dias e dias de luta interior, no estudo da melhor forma de conseguir romper com aquela indiferença.
O grupo ia tomar o pequeno almoço ao velho Café Centenário, em frente da Câmara Municipal do Barreiro, fomos nós alguns dos que o inauguramos aquele espaço, quando ainda tinha um balcão em curva no centro da casa, e eu lá aparecia, sentando-me ao balcão ao lado delas, e tentando sempre conseguir uma palavra, um simples; ola! Um bom dia! Mas nada, ela olhava, gracejava com as amigas em voz baixa, mas nada. Eu bem que tentava entabular conversa, mas nada!
Que pateta eu era nessa época, ai sim eu queria ser outro eu, outra pessoa, mas sem saber bem quem deveria encarnar. Na verdade ela não tinha namorado em quem eu me pudesse olhar, e então puder fazer o comparativo. Pensava em tudo, em tantas idéias, em tantas soluções...
Hoje claro que pensando nesse passado eu só posso sorrir. Seria da roupa? Será que os blusões eram desportivos demais? Mas ‘caramba’ eram iguais aos que todo o mundo usava! E as calças? Talvez fosse da ganga; mais clara ou mais escura, bem que poderia ter influencia! Até pensei em trocar de marcas, e vestir outras marcas, mas quais, quem poderia saber.
Talvez mesmo dos sapatos! Poderia ser sim dos sapatos, deveria eu passar a calçar tênis, outro tipo de sapato, ou de cores, porque em vez de castanhos deveriam ser pretos, sim pretos talvez fossem os que ela gostava mais.
Também poderia ser do corte de cabelo! Do comprimento, quem sabe se não mais longo, ou então mais curto, ou da própria cor!
Não isso da cor, eu jamais iria agora mudar de cor de cabelo. Era a minha cor natural, e nunca por nunca iria pintar o cabelo, ainda para mais nem sabia de que cor ela gostava...
Mas que ‘merda’!!!
Mas que grande ‘merda’ a minha vida nesses anos 80!!!
Uma vida de ‘merda’, sempre com o coração acelerado quando a vejo, e nada sai de positivo para mudar algo.
Ah, se o tempo voltasse atrás!
Ah, se eu tivesse tido mais tempo!
A nossa vida é tão efêmera quanto a passagem de uma nuvem pelo céu. É como uma neblina que, de manhã aparece e, ao fim da tarde vai embora. Um vapor!
A neurose da vida, a pressa de viver, rouba de pais e filhos e amores o tempo de se cuidarem mutuamente e faz com que muitas vezes percamos tempo demasiado com pequenos fatos esquecendo a importância de gozar os que realmente mereciam essa grande atenção.
Depois de tudo o que me aconteceu, ganhei um lema que é fazer o bem enquanto aquele de quem gostamos esta vivo, depois é já demasiado tarde. Alguns só se lembram dessa situação por ocasião da morte, ai essa lembrança é já inútil.
Que virtude pode ter alguém que passou pela vida e não fez amigos, e viveu isolado, na companhia da solidão?
Nenhuma virtude!
A pressa doentia nos rouba o tempo necessário para a melhor de todas as experiências sobre a terra: Viver! Viver!!!
Mais do que um simples ato biológico, a vida é afetividade, uma oportunidade única para amar e ser amado!
Achava que ela gozava comigo quando falava com as amigas.
Então um dia, sem eu poder imaginar nada, fui tomar o pequeno almoço ao mesmo local de sempre, e que estranho, só lá estava ela, ainda hoje não sei se foi prepositado, combinado entre elas. Só ela sentada o balcão.
É agora, pensei eu!
Sento? Não sento?
Dou bom dia? Não digo nada?
Deve ser uma má educação nada dizer, e perder uma oportunidade de escutar a sua voz, ou ver que ela nem me dá os bons dias!
Que faço?
Então João, entro ou não entro no café?
Enchi-me de coragem. Entrei e sentei-me perto dela, com uma cadeira vaga entre nós, e dei os bons dias.
E ela respondeu um bom dia sorridente.
Milagre!!!
Quebrou o gelo, e eu consegui quebrar a minha introversão.
Eu fiquei gago, não saia mais nada da minha boca, com medo de que as minhas palavras saíssem tortas e matassem aquele momento mágico.
A pouco e pouco fomos finalmente falando. Conversa fútil sobre o tempo, as noticias da tv, e mais um cem numero de futilidades.
Verdade se diga que eu achava que acabaria por ter um enfarte, ao escutar a sua voz, aquela voz muito doce mas firme, aliada ao seu cheiro amendoado. A imagem das suas mãos que de tão pequenas mais pareciam; as mãos de uma criança.
Mas nada disso aconteceu, e quando resolvemos pagar a despesa e sair, foi o maior choque do mundo para mim. Ai ele perguntou-me:
“João! Tens alguma coisa contra mim?”
Eu fiquei atônito, e acho que avermelhei bastante, antes de responder, meio a gaguejar:
“Não!”
Então ela com a maior das calmas do mundo, deu-me um imenso beijo nos labios, e olhando bem no fundos dos meus olhos, disse:
“Então, porque não falavas comigo, eu não sou um bicho do mato!!!”
O mundo desabou, caiu aos meus pés!
Acabei por a acompanhar em silencio até ao Externato. Não conseguia falar. Nada saia da minha boca em termos de som. Só a sua companhia, aquele seu beijo especial, escutar a sua voz, sentir que estava ali perto de mim, á distancia de um ou dois palmos, era tudo.
Não fui a mais nenhuma aula nesse dia. Fugi!
Nem eu sabia para onde ir, só queria correr, gritar, fugir sem destino!
Acho que acabei por andar km pela praia, caminhando sem nexo, só para caminhar e ver a imensidão da água ali.
Nos dias seguintes passei a ser oficialmente admitido no grupo, e não mais deixei de compartilhar os seus sonhos e ambições pessoais.
Agora chegava muito mais tarde a casa. Tinha a tarefa diária de a acompanhar, até á estação ferroviária do Barreiro- A, e ali ficar a conversar sem olhar para o relógio até que o comboio para o Penteado-Moita, resolve-se ali parar e acabar com o meu autentico sonho real diário. Claro que eu sonhava sempre com a possibilidade de um esquecimento do maquinista, e que a composição fosse direta até á estação do Lavradio, para assim eu prolongar infinitamente o tempo.
Cheguei a apanhar o comboio e ir até ao Penteado e regressar mais tarde, só para ter o prazer de mais 30 minutos de deslumbramento.
Foram dias, semanas, meses de profundo conhecimento mutuo. Muitas vezes a Ana e a Isabel faziam companhia, até porque a Ana morava nessa época em Alhos Vedros e apanhava o mesmo comboio, mas nós ficávamos a conversar ou apenas a trocar sinais que parecia que á anos e anos conhecíamos a intimidade de cada um em termos de sensibilidade, que para nós estarem ali elas ou não, era igual, pois sabíamos que éramos só, mesmo só nós, o resto era paisagem.
Eram sonhos, e mais sonhos, projetos e mais projetos, era uma constante ambição de construir a vida á medida dos nossos sonhos e ambições.
Rir era a nossa melhor arma, muitas vezes como as crianças felizes. Descobri que podem existir almas gêmeas.
Depois eram as festas os concertos, a alegria naquela época era tão simples, bastava estarmos juntos. Para mim naquela época a vida era assim como se tivesse sido encarnada por outra pessoa que comigo compartilhava essa mesma vida, eu sentia-me tão grande que achava poder ser dois num só corpo, tal a auto – grandeza, a enormidade que sentia.
Posso sem vergonha alguma ou qualquer duvida assumir que estava deveras apaixonado.
Eu vivia os exames dela como se fossem os meus.
As suas alegrias e tristezas, era uma simbiose de sentimentos e emoções que eu achava que nada nem ninguém poderia fazer terminar nunca.
É assim que passam todos aqueles anos, como se eu não sentisse o tempo passar.
Aconteciam coisas incríveis que ainda hoje, agora neste preciso momento em que escrevo e olho para a lua cheia aqui em cima da minha cabeça, me pergunto porque será que nós na vida temos alguns momentos tão felizes, mas que acabam, quando deveriam ser intermináveis.
Nem a lua nem ninguém consegue responder, porque na verdade fomos nós que os vivemos e não voltam mais.
Até mesmo a morte de Elis Regina ocorrida naqueles anos, e sofrida por nós dois, como se fosse um familiar que partia, fazia parte dos poucos momentos que de tristes nos estranhamento tornávamos felizes, ao passar horas a escutar o que aquela mulher nos deixou de belo com o seu canto,
Ao longo da nossa vida temos, por vezes, dias inesquecíveis, com ela, com a Dulce eu felizmente tive muitos, no entanto gostaria de ter tido muitos mais, tantos que nem fosse possível contar quantos.
Pela ironia, pela verdadeira ironia de todos os acontecimentos desses dias, muitas deles, quase dignos de um filme de Woody Allen. Não posso esquecer o dia em que fomos ao espetáculo “Febre de Sábado da Manhã” no saudoso Estádio José de Alvalade.
Nesse época, eu era atleta do Sporting, o atletismo já era pois o tamanho do coração não permitia mais, mas praticava xadrez federado, e pertencia á equipa de juniores oficial do clube, e como na 6ª feira tinha treino obrigatório na Secção, resolvi dormir no Centro de Estagio de Alvalade. Bom, dormir é o termo utilizado, quando na realidade eu passei a noite na ‘rebaldaria’ com os meus amigos lá do Centro de Estagio, uns do futebol, outros da ginástica e outros ainda, meus velhos conhecidos do atletismo, e assim a noite acabou por passar com uma direta, sem pregar olho, os bilhetes para o espetáculo estavam á muito esgotados, mas eu como atleta do clube, tinha conseguido os tão almejados 4 ingressos, um para mim, outro para a Dulce e outros dois um para a Ana e outro para a Isabel.
Assim pela madrugada; liguei para a Dulce, para confirmar os bilhetes e combinar a hora e o local de encontro, que seria o preciso momento da abertura das portas, 08.30 horas, junto dos portões do estádio que davam acesso ao setor da central. Dessa forma eu nem teria que sair de dentro do estádio, e assim lhes entregava os bilhetes pelos espaços da vedação, para assim poderem entrar.
Á hora marcada, elas lá estavam, e posso garantir que até hoje não recordo ver ninguém tão feliz com a entrada num local para assistir a um espetáculo como naquele dia a Dulce, ela pulava de alegria, irradiava alegria por todos os poros, saltava quase para o meu colo, uma imagem impressionante de vivacidade e alegria. Mais parecia uma criança grande...
Ela queria muito ir assistir aquele espetáculo, e perante a ameaça de bilhetes esgotados e um sonho desfeito, aquilo era uma bomba de adrenalina na sua alma, daí tanta alegria.
Passamos a manhã vendo desfilar bandas e cantores que naquela época faziam as alegrias dos jovens daqueles tempos, como a Adelaide Ferreira, Trabalhadores do Comercio, Táxi, Lena de Água e a Banda Atlandida, Heróis do Mar, Ficher X, e tantos outros que o Julio Isidro tinha conseguido reunir naquele espetáculo único.
Fomos depois almoçar, e nunca mais vou também esquecer esse almoço, tanto pela positiva como pela negativa. Solicitamos sandes de carne assada com refrigerantes, acabaram por nos servir umas sandes em que a carne vinha crua, mesmo em sangue, e eu reclamei. As sandes voltaram para a copa para serem colocadas como deveria ser. Acabaram por voltar no mesmo estado, eu voltei a reclamar e novamente a situação se repetiu. Ai eu acabei fazendo um escândalo, á minha maneira, fui á rua buscar um policia porque se recusavam a apresentar o livro de reclamações. E finalmente enquanto elas falavam com a autoridade eu para concluir fui ao WC e urinei toda a casa de banho, depois chamei o policia para observar o estado do WC, que muito embora eu tenha agravado a sua situação, não estava de forma alguma em condições apresentáveis, tal a sua imundice.
De tal forma a reclamação foi feita que passado algum tempo, após a vistoria a que deu resultado a nossa reclamação, a casa “Pomona”, na Rua da Prata em Lisboa, foi obrigado a encerrar para proceder a profundas reformas para solucionar problemas estruturais com que vinha até então funcionado.
Claro que acabamos aquele almoço noutro local, e decidimos ir ainda ao cinema, ao velho e saudoso São Jorge, ali na Avenida da Liberdade.
A decisão era ir ver um filme que demorava mais de quatro horas, “Voando Sobre Um Ninho e Cucos” de ‘Milos Forman’, com o imprescindível Jack Nicholson no desempenho principal.
Eu estava a cair de sono e claro extenuado de cansaço, mas como resistir em não ver o meu ator favorito até aos dias de hoje, e ao mesmo tempo fazer a vontade pessoal aquele poço sem fundo de energia e alegria, que era a Dulce. Impossível!
Lá fomos então, e para mal dos meus pecados eu não resisti e acabei adormecendo no ombro de uma senhora que estava sentada ao meu lado.
Depois, contaram-me que, foi o delírio em termos de risota, mas que a senhora se apercebeu do meu cansaço real, e disse para ninguém me acordar. Para ela não tinha qualquer problema, talvez porque eu nessa época ainda não ressonava, se fosse hoje, teria por certo sido colocado fora da sala de cinema!
Eu acabei dormindo praticamente todo o filme incluindo os dois intervalos que o compunham, e nada nem ninguém me fez acordar. No final lá me conseguiram fazer acordar perante a galhofa geral, e a minha caricata figura ao observar a minha situação encostado ao ombro da senhora, bem como as minhas mais variadas e esfarrapadas tentativas de lhe pedir desculpa.
Como sempre, com aquele grupo, os filmes eram posteriormente minuciosamente estudados e discutidos. Eu nesse caso fazia figura de parvo, pois ao levar todo o filme a dormir, como o poderia discutir, se não tinha visto rigorosamente nada.
No dia seguinte voltei a Lisboa e comprei entradas para duas sessões, e assim passei quase todo um dia no cinema, a ver o mesmo filme, em duas sessões seguidas. A verdade é que eu gostei tanto desse filme, que embora não seja o meu favorito, esta no lote dos de que mais gosto até hoje, e já o devo ter revisto bem mais de uma dezena de vezes.
Assim fiquei habilitado a poder discutir as vivencias do manicômio, e as diversas questões sociais e filosóficas levantadas ao longo do filme.
Aquele sábado foi um dia foi maravilhoso. Não porque tenhamos estado sós, mas porque comungávamos de muitas coisas que nos faziam simplesmente felizes. Era um Sábado igual a muitos outros em que vivemos os mais inesquecíveis momentos que se podem viver num sábado, por dus pessoas apaixonadas.
A nossa teimosia era o nosso maior defeito, e talvez por isso, tendo nós consciência de que os nossos sentimentos mútuos eram muito mais profundos, mesmo assim nenhum de nós, no entanto, queria assumir poder perder para o outro, ou assumir aquilo que ambos já sabíamos. Quando digo perder é no sentido de se assumir bem mais do que deveríamos ter como o relacionamento que se vivia.
Para lhe tentar fazer ciúmes consegui namoriscar a filha do Professor Fraguas, a Isabel Fraguas, e chegava mesmo a dormir lá na sua casa, na Verderena. Depois a situação ficou bem mais complicada para mim, pois a Isabel, não sonhava com um simples namorico, estávamos a entrar já por caminhos da mais alta intimidade, e eu pensei que por certo isso não acabaria nada bem. Na verdade eu deixei de andar com ela em Junho e ela acabou por casar em Setembro ou Outubro. Parei depois para pensar, e descobri que tinha acertado no alvo; a Isabel procurava mesmo um marido, não importava como, e tinha conseguido encontrar um em meia dúzia de meses.
Depois disso, tudo voltou ao normal entre mim e a Dulce, mas mais uma vez nem eu nem ela queríamos dar o braço a torcer, mais uma vez tentei dar a volta colocando alguém na minha vida, e surge então a Maria do Céu, mas continuava a manter o contato com ela, a sua imagem não saia da minha vida. Sempre mantinha a esperança de que fossemos capazes, por uma vez de assumir ser, de certa forma adultos, e que pudéssemos viver as nossas vida, fazer o nosso projeto de vida andar, ser realmente real. Mas a nossa teimosia era mais forte.
Por fim em 1984 eu decidi que era uma boa oportunidade de partir para a Europa, e no regresso jogar o tudo ou nada. Fazendo-lhe sentir isso mesmo, que o futuro tinha que ser jogado desde aquele momento.
Nessa época, recordo que me deu um foto que até hoje guardo, porque no verso tinha umas palavras premonitórias. Naquele momento até as achei algo estranhas, mas como estava sempre a brincar com tudo, eu nem liguei muito a isso. Apenas me dei conta da importância, dessas palavras, uns meses mais tarde. No entanto, nesse momento questionei o que havia escrito, dizendo-lhe:
“bem que me podias ter escrito outra dedicatória”
Apenas me respondeu:
“Tens razão! Podia ter escrito, mas não escrevi, porque pensei escrever isso assim e pronto.
Quando voltares, finalmente falamos sobre essas palavras e tudo o mais que queiras!
Mas te vou dar algo para leres na viagem, e talvez ai percebas que eu te conheço melhor do que imaginas!”
Curioso, muito curioso tudo quanto me disse.
“Quando voltares”
“Finalmente”
“Falamos”
Incrível, parecia uma frase sem muito significado, mas tinha todo o sentido e significado do mundo, pois se analisar a dedicatória da foto, as suas palavras, e aquilo que deixou escrito sobre mim, como que parecia adivinhar tudo quanto veio a acontecer.
A irônica dedicatória da foto, reza assim:
“Foste ‘cagar’ ao cemitério, por trás de um tumulo, veio de lá um morto e disse:
Tens um ‘cú’ que até mete medo!”
Brincava sempre comigo que eu tinha que engordar um pouco, tinha um ‘cu’ que metia medo...
Levei a dedicatória, para uma mera brincadeira sobre o assunto, nunca ligando o cemitério a outras situações de futuro.
Por outro lado deixou umas linhas escritas sobre mim, que eu até hoje continuo a utilizar como minha própria avaliação, uma vez que estão na sua totalidade mais do que corretas.
Dulce escreveu:

"Boas qualidades de resistência moral e física. No fundo é ambicioso, mas ninguém o suspeita. Escolheu um objetivo na infância e está a persegui-lo pela vida fora. Embora evite o menor risco, é capaz de fazer um bom escândalo. Às vezes, nos momentos de grande tensão, esquece onde se encontra e para quê, e avança sem temores até resolver a situação, nem para isso tenha de derrubar paredes...
É um bom coração, dissimulado atrás de uma aparência por vezes a roçar o grosseiro, quando a tal se vê obrigado.
Não se torna intimo dos seus subordinados e acaba por sofrer por isso em silêncio.
Os Chefes apreciam-no, mas ele não lhes dá muito espaço de manobra para familiaridades, pois continua individualista e orgulhoso.
O dinheiro é-lhe indiferente, se bem que ganhe o bastante, da mesma forma o utiliza para o seu bem estar e de todos os que lhe são queridos e próximos.
De tudo quanto já consegui conhecer dele, é alguém em busca constante da felicidade, mas por vezes tem essa felicidade em frente dos olhos, e não a consegue sentir.
Talvez depois, daqui a algum tempo, quando o tempo passar, vai poder sentir que a felicidade é para ser vivida. Vivida no momento, e não para ser guardada para viver na eternidade..."
Eu parti para conhecer a Europa, e para fugir de mim, sim eu achava que partir assim era mudar-me a mim próprio, que talvez eu fosse o erro. Que eu é que poderia estar errado, estar a proceder mal, que necessitava de viver como um outro individuo, um outro eu.
Claro que nada mais errado. Eu sou eu, como sempre fui, não mudei nada e muito menos fugi de mim.
Quem sabe o que poderia ter sido a minha vida, se não tenho apanhado naquele dia o Sud-Express para Paris, se não tenho passado largos meses a correr essa Europa nesse ano de 1984.
Será que a minha vida teria sido bem diferente, ou mesmo algo diferente?
Ninguém sabe!
Sei que a Dulce era, em suma, alguém com um talento único, exclusivo.
Na realidade não apenas um, mas dois talentos, os quais, segundo os Gregos, forjaram a personalidade singular de um vencedor; o saber intuitivo e o saber formal, juntos, eles resultam na “Phronesis”, eles resultam na chave para a felicidade comercial e pessoal.
Para conseguir entender, basta lembrar aquele sorriso franco, aberto, marca registrada de Dulce, uma mulher que sabia viver.
Por outro lado, o que eu também, hoje, sei, é que o destino não esqueceu esses talentos da Dulce, mas acabou por me levar para a Europa, e que só retornei a Portugal no dia 24 de Dezembro de 1984.
Sei também hoje, que por um mero acaso, mais uma vez um mero acaso do destino, e de uma carta do meu pai que se encontrava depositada na posta restante de Milão, local onde eu muito raramente procurava correspondência, como atestam muitas cartas pelos meus pais enviadas para outros locais onde passei e devolvidas por não terem sido por mim reclamadas. Essa carta reclamada, perguntava se por mero acaso eu não viria passar o Natal com eles. Eu perante aquele apelo, lançado bem mais de um mês atrás, decidi alterar o Inter-Raile, que já estava com o carimbo para seguir até á Holanda, Amesterdan, e marquei como novo destino, Milão - Paris, Paris - Lisboa. Até hoje nunca consegui visitar a Holanda, embora já o tenha tentado mais de uma vez, e sempre acontece algo para o impedir, talvez que seja também destino, quem sabe!
Cheguei a Lisboa naquela manhã do dia 24 de Dezembro de 1984, com a nítida sensação de que a minha vida não tinha mudado assim tanto, eu continuava o mesmo, embora mais enriquecido culturalmente, mas em termos íntimos o mesmo que meses antes tinha saído daquela mesma gare de Santa Apolônia em Lisboa.
Continuava a namorar?! com a Maria do Céu, alguém que intimamente não queria, e a amar alguém a quem queria muito, e que agora sim, eu sentia que teria de se decidir finalmente, como no tempo das cruzadas, ou por mim, ou contra mim!
Cheguei a casa no fim da manhã e desde logo senti uma atmosfera pesada no ar. Sentia que não era nada contra mim, em termos pessoais, mas que era algo que tinha que ver comigo indiretamente. A minha mãe tinha algo para me contar mas evitava, apesar da minha grande insistência, continuava a recusar falar, alegando com um sorriso envergonhado que não tinha nada para contar, as novidades a pouco e pouco eu as iria sabendo, tudo estava quase na mesma, mas frisava sempre aquele quase com uma intensidade algo estranha, diria mais, de um modo intrigante.
Depois do almoço, e também depois de muita insistência minha ao longo da refeição, lá se decidiu a pouco e pouco, procurando as melhores palavras para abordar o assunto, confidenciar-me que alguém meu amigo tinha telefonado. Uma mulher para me procurar contatar, mas que como nem ela sabia para onde eu poderia ser contatado, não tinha podido fornecer esse contato. O motivo era que a Dulce tinha falecido durante o mês de Agosto, num acidente de viação.
O mundo desabou!!!
O meu mundo desabou sobre a minha cabeça, eu não chorei, não disse nada. Fiquei mudo a olhar para ela sem a ver. Era para mim uma mancha na minha frente, achei que teria ficado novamente cego, que o tempo tinha andado para trás, e que estava novamente em Cinfães do Douro, pedindo para dar 20$00 ao cego na porta da clinica.
Mudei de roupa e sai em direção a Alhos Vedros, a casa da mãe da Ana, para tentar saber algo.
Eu não acreditava naquela noticia. Era má demais para poder ser verdade. Só podia ser mentira, uma brincadeira estúpida de alguma doida, uma brincadeira de muito mau gosto. Quem sabe até se não seria mais uma das brincadeiras da Dulce para tentar entrar em contato comigo.
Em casa da Ana a recepção não podia ter sido mais esclarecedora, assim que me abriram a porta, a mãe desatou a chorar, e eu mesmo perante toda aquela situação continuava incrédulo. Não queria acreditar. Continuava anestesiado sem crer na verdade obvia. Acabei por só perguntar onde estava e sai enlouquecido em direção á Moita.
Nem sei como lá cheguei ao cimo da ladeira onde fica situado o cemitério, nem tão pouco como fui parar á Moita, se de táxi, se a pé correndo, ou de autocarro ou mesmo de comboio, na verdade eu não sei. Para mim acho que foi a voar, e só acordei quando cheguei em frente do imenso tumulo que tem a foto da Dulce e fica situado na entrada do cemitério, do lado esquerdo de quem entra.
Ai sim, o meu mundo desabou tudo o que ainda faltava ruir, realmente a minha vida final tinha mudado mesmo.
O sonho, aquele sonho maravilhoso tinha acabado, agora a realidade era algo muito diferente!
Ali fiquei a olhar, a olhar sem pensar, num vazio tão grande como nunca mais na minha vida voltei a sentir. Tinha a sensação de que era mais uma pedra, igual a tantas outras que estavam ali á minha volta nos diversos túmulos. Esmurrei a minha mão numa parede, mas não sentia nada, só dor interior, angustia, desespero, impotência, em bom português uma imensa sensação de “merda”.
Só recordo o meu despertar no momento em que um dos coveiros me acordou daquele sono de olhos abertos, e me perguntou se estava bem, se necessitava de alguma coisa.
Nada!
Da minha boca não conseguia sair nada!
Olhava e não via mais nada, só o tumulo, só a foto e mais nada!
Só ar. Só o ar que respirava, e nada mais saia da minha boca.
Escutava realmente o que ele me dizia, sobre a campa, e sobre o fato de o pai dela, ali aparecer muitas vezes durante a semana, ele achava que todos os dias, e ás vezes mais do que uma vez por dia, por isso tantas flores, um mar de flores sempre frescas.
Mas a voz do coveiro, embora entrasse na minha cabeça, era distante, eu continuava olhando, um olhar vazio tão vazio como se naquele instante, um dos piores momentos da minha vida não pudesse ter nada pior. Olhava para o tumulo, olhava para o céu ainda azul daquela tarde de Dezembro, e nem sabia bem que dizer, ou o que apetecia fazer.
Depois voltei a pensar.
E foi então que me perguntei, alto e bom som:
Mas porque???
Realmente que pergunta mais estúpida, patética.
Porque???
Quem sabe, como vou eu saber!
Existem muitas pessoas que ficam presas ao seu passado e quando se encontram diante de certas dificuldades, a mente aciona a imagem daquele quadro já passado de angustia ou decepção. Então elas não conseguem avançar e vencer as dificuldades.
Para se conseguir conquistar e vencer montanhas é necessário esquecer muitas vezes o que ficou para trás nas nossas vidas e avançar tendo alvos bem definidos para conquistar, para vencer sem ter receio de poder falhar.
Sai dali rápido sem olhar para trás. Nunca olhei para trás. A Dulce que eu conhecia, a Dulce que eu conheço, não tinha ficado ali, ela vinha comigo, eu tinha ido ali resgatar uma importante parte de si, então para que olhar para trás.
Consegui um transporte para chegar ao Penteado, a casa dos pais dela, e foi realmente ali que eu acabei por acordar. Foi ali á porta da sua casa que eu perante o pai e a mãe, trajando de um luto completo, olhando para mim e chorando como crianças, sem parar, que eu me dei conta de que tudo tinha mudado. Toda a minha vida tinha mudado, todos os sonhos e objetivos tinham sido alterados.
A grande maioria das pessoas sonha sem duvida com o vencer na vida, conquistar espaços, sentir de perto o sabor da vitória, e esse desejo esta sempre presente na nossa luta constante pela felicidade e pela esperança de uma total realização pessoal.
A vida é uma competição diária, é um jogo onde nos confrontamos com situações quantas vezes adversas e muitas vezes com adversários bem fortes, a morte é o maior adversário que encontramos nas nossas vidas, é uma luta constante por sobreviver e conquistar vitórias atrás de vitórias.
Os objetivos na vida de um vencedor canalizam energia, esforço e tempo para conseguir atingir os objetivos, conjuntamente com determinação que é a força maior que nos faz enfrentar e ultrapassar os obstáculos do dia a dia.
Que ‘merda’ de prenda de natal eu levaria aquela família, aquela casa, uma casa vazia de tudo quanto mais eles queriam. Seria o primeiro natal sem a Dulce, e eu ali estava num dia 24 de Dezembro de 1984, a porta de uma família destroçada, apenas para dizer aqui estou, e só venho trazer um beijo e um abraço, e “porra” lembrar mais uma vez a vossa tragédia. Acabei por ter vergonha de ter batido naquela porta, naquele dia, com o único objetivo de indiretamente continuar a massacrar com recordações aquela gente boa.
Mais tarde acabei por ver que afinal tinha feito muito bem em ali ter ido, e de ter procedido como acabei por proceder.
Acho que acabaram por ter um Natal diferente do que poderiam imaginar, mas menos solitário, embora eu nada pudesse substituir.
E que dizer da estranha e irônica mensagem da foto, quase premonitória. Sim agora lembrava-me dessa mensagem final do quando voltar, na verdade ela tinha toda a razão e finalmente estávamos a falar de um modo tão estranho, mas a falar, embora indiretamente. Ela reafirmava que por forças do destino, as nossas vidas nunca mais se iriam encontrar.
Nesse dia eu acabei por fazer um pedido algo estranho, mesmo bizarro, mórbido até. Solicitei se poderia dormir no quarto da Dulce, no quarto que fora da Dulce, que no fundo continuava a ser dela.
Acederam sem qualquer problema, ainda mais que não me deixavam sair daquela casa, e eu sem jantar, pois a mesa de natal foi posta, mas ninguém comeu nada, rigorosamente nada, acabei por dormir no quarto que fora dela, na cama dela, junto de tudo o que era dela, que um dia fora seu e tocado por si. Estava tudo igual, as fotos, os quadros, os seus discos de que nunca se desfazia nem separava, em especial do seu conjunto preferido liderado por Phil Collins, e de que tinha toda a coleção. Ainda ali estava o seu cheiro amendoado, eu a sentia ali, até o seu cão não dispensou acompanhar-me nessa verdadeira romaria, veneração ou como queiram chamar-lhe. E tal como sempre fazia, deitou-se aos pés da cama e por ali ficou. Sim o “Logan” era um cão de raça ‘boxer’ o mais fiel possível, e até ele estava convicto de que ela continuava ali, só o seu olhar antes vivo e agora distante e languidamente triste se podia notar que estava certo de que jamais a sua dona ali voltaria para lhe afagar o pelo e brincar um pouco consigo.
E foi assim que eu por uma noite, mesmo imaginaria, dormi com a Dulce. Sim dormi no seu quarto juntinho ao seu cheiro amendoado, e á sua forte presença que eu podia, eu conseguia encontrar um pouco em cada canto.
Nunca fizemos amor e obviamente muito menos nessa noite de Natal de 1984. Nunca aconteceu porque não quisemos, umas vezes eu, e outras ela, e, sobretudo eu que a tinha como algo ainda intocável. Algo para poder desfrutar num momento muito, mas mesmo muito especial, um momento que afinal nunca chegou a acontecer nas nossas vidas.
No dia seguinte. Levantei-me bem cedo, acho que vi ainda nascer o sol da janela do seu quarto e sai. Eu queria ir embora sem chorar, sem magoas, sem despedidas, no entanto eles já estavam á minha espera na sala. Acho mesmo que não tinham dormido, que não tinham saído toda a noite da sala, tal a imagem das suas olheiras. Queriam muito que eu ficasse. Queriam que eu ficasse para sempre ali. A mãe queria mesmo que eu me transforma-se de alguma forma no filho que tinham perdido, queria que eu substituísse alguém insubstituível. Sim porque a Dulce é insubstituível.
Queriam metaforicamente que eu casasse com alguém que fisicamente já não existia. Um casamento com a memória!
Algo ainda mais mórbido que a própria noite que acaba de ter.
Obviamente que de um modo educado recusei, explicando algo que eles já sabiam muito bem ser impossível.
A mãe agradeceu o meu carinho e dedicação para com a filha, e em especial por nos ter presenteado com aquela noite especial. Á saída abraçou-me a chorar e agradeceu ainda a minha especial paixão, dizendo que; muitas vezes ao longo do tempo pensava que nós já tivéssemos feito amor, mas que devido ao resultado da autopsia souberam que não, que eu sempre fora o mais correto possível e um cavalheiro com ela. E que, talvez não o devesse ter sido tanto, pois sabia que ela me amava tanto, e nunca consumara esse amor, embora soubesse que fosse, onde fosse, que ela estivesse naquele momento, me desejaria com toda a certeza que eu pudesse ser muito, mas mesmo muito feliz.
Vim embora daquela casa e não tenho qualquer vergonha em o afirmar; chorei até ao pequeno promontório de parada dos comboios no Penteado. Chorei por aquele caminho de terra batida que tantas e tantas vezes caminhamos. Alguém que eu gostaria muito de que fizesse nesse dia mais uma vez o caminho comigo.
Claro que estava a fazer o caminho, mas eu queria mais, eu queria a presença física.
Nunca olhei para trás!
Para que olharia para trás, se aquilo que realmente mais desejava naquele momento ia ali comigo de um modo especial.
Nunca mais voltei aquele local. Nunca mais voltei a ver aqueles pais maravilhosos, exceto a ele que cerca de 10 anos mais tarde, resolveu trazer um pouco da presença da Dulce a um comício político no Barreiro.
Sim, ele surgiu como sempre vestido de luto da cabeça aos pés, no comício realizado no salão nobre de os “Franceses”. Foi no comício do Partido Popular, a quando do Referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez, que ele apareceu, e ali ficou junto de uma das portas, na ultima fila, imóvel observando enquanto eu usei da palavra. Eu sem saber bem como, no meio de toda aquela multidão, consegui vislumbrar a sua imagem franzina, lá bem no fundo do salão, tal como o meu pai também fez, nesse mesmo dia.
E que dia...
Quando desci do palco ele ainda lá estava imóvel no mesmo local, mas quando consegui atravessar a multidão e chegar ao local, ele tinha desaparecido como uma nuvem que desaparece de um momento para o outro no céu. Esse foi o ultimo relacionamento visual com conhecimento meu, com aquela família.
Ao longo da minha vida voltei só umas duas vezes ao cemitério da Moita, junto do tumulo da Dulce, e á bem mais de 15 anos que por lá não tornei a passar, acho que não é necessário, por um lado sei que a amiga Ana Caetano todos os anos por lá passa, acho até que bem mais do que uma vez por ano, e lhe deixa as rosas vermelhas de que tanto gostava, e junta sempre mais uma ao ramo, que é a minha... só uma, porque não é necessário mais do que uma rosa para demonstrar o quanto se pode querer estimar e amar uma mulher. Claro que são palavras minhas!
Mas sempre lhe dava só uma rosa...
Quanto ao desejo de felicidade, pois bem, quem consegue ser sempre feliz?
Acho que ninguém!
Tenho realmente momentos de rara felicidade, como qualquer humano os tem com toda a certeza, mas acho que a felicidade a que ela se referia, essa era uma outra, uma outra felicidade, uma felicidade de um outro tipo, com um outro sentimento, a que se deve chamar antes Amor.
Também ai tive momentos, como acho que a grande maioria consegue ter ao longo da sua vida. No entanto só muito recentemente aprendi a conhecer-me e a conhecer esse sentimento de uma forma mais continua e com vincada continuidade.
A Dulce sem duvida mudou muito a minha vida, toda a minha vida, pois depois dela nada mais voltou a ser igual até que surgiu alguém novamente muito especial, alguém que tem realmente um sorriso e uma alegria de viver que me parecem muito especiais, mas para isso foram necessários mais de 20 anos de vida e muitas e muitas experiências depois.

Um comentário:

Gigi Mattheus disse...

Qerido João,

Muito linda sua história de Amor.
Muito triste também como tudo terminou...
Eu sinto muito por toda a tristeza que eu sei que sentiu e sente quando te voltas a tudo isso.
Sobretudo porque, esta pessoa muito mais que "especial", cruzou o teu caminho somente para que tu, aos dias de hoje, fosse a pessoa que és...
Valorizando cada instante da vida e as coisas que realmente são importante viver...
E para que também, com esta frase muito "sábia", que andas seguindo ao pé da letra, não te deixes repetir atitudes que podem-te fazer eternamente infeliz.

"Talvez depois, daqui a algum tempo, quando o tempo passar, vai poder sentir que a felicidade é para ser vivida. Vivida no momento, e não para ser guardada para viver na eternidade..."

Emocionei-me muito, com tudo, muito...muito.

Beijos no coração!

Gilda